SEJA BEM-VINDO

Se você está acessando meu blog é porque quer informação, e principalmente sobre Bento Gonçalves. Então seja bem-vindo e desfrute das informações que você só encontrará aqui.







Pesquisar este blog

OBRA LITERÁRIA

Era oito horas do início de uma noite fria e úmida de sexta-feira, como a maioria delas no inverno da cidade de Homero, um jovem advogado que, apesar dos seus apenas três anos de advocacia, saia do seu escritório somente tarde da noite. Homero, não apenas por estar nos primeiros anos do exercício da nova profissão, se preocupava em atender bem e a qualquer hora seus clientes, por isso pouco se importava com a hora em que era chamado. O importante era fazer crescer a clientela; o importante era fazer crescer seu escritório. Ao atender o telefone, Homero percebeu imediatamente que se tratava de uma ligação do Hotel Eudemo, para quem o jovem advogado atuara recentemente em algumas pequenas causas. De imediato a telefonista passou a ligação para o gerente do hotel.
- Dr. Homero! – exclamou o gerente.
- Sim.
- Acabamos de receber um casal que se instalou no hotel. O homem é médico e está muito nervoso, assim como sua esposa. Ele é de Medéia e disse que atropelou um ciclista na cidade vizinha. Disse que quer falar imediatamente com um advogado, por isso estou te chamando. Poderias vir até o hotel?
- Tudo bem – respondeu Homero sem hesitar– estarei aí em poucos minutos.
Imediatamente ele deslocou-se para o hotel, o qual fica apenas a 5 minutos de seu escritório. Chegando lá, logo na entrada, foi recepcionado pelo gerente que o aguardava na recepção. Feitas as saudações de praxe, o gerente conduziu sem maiores delongas o advogado até onde estava o hospede ilustre.
- Dr. Homero – disse o gerente do hotel – este é o Dr. Dionísio. Ele se hospedou agora a pouco e parece estar precisando do seu serviço, como já lhe falei. Vou deixar vocês à vontade para conversarem. Caso precisem de alguma coisa é só mandar chamar.
À frente de Homero estava um homem de estatura baixa, pele clara, cabelo liso e curto, de aparência simples e vestindo traje de passeio. Não havia nada de extraordinário que pudesse ser ressaltado no homem que estava parado ali, imóvel, aparentemente nervoso. Era um homem tipicamente comum, cuja presença em qualquer ambiente de início não chamaria qualquer atenção. Ambos acomodaram-se no hall de entrada, junto à lareira, onde sem a companhia de mais ninguém passaram a conversar.
- Dr. Dionísio, muito prazer, meu nome é Homero, sou advogado do hotel e fui chamado para conversar com o senhor. Em que posso ajudá-lo?
- Dr. Homero – disse o perturbado e trêmulo hospede - preciso muito de seus serviços. O doutor nem imagina o que aconteceu. Não sei o que fazer!
- Acalme-se – disse Homero com o tom de quem pretende tranqüilizar alguém realmente aflito. Relate o que aconteceu, nada mais.
- Dr. Homero, eu e minha esposa estamos passeando de férias pela região. Antes de chegar em sua cidade, passei pela cidade vizinha, a fim de ver alguns pontos turísticos. Quando eu estava saindo de lá, um ciclista atravessou a rua e eu acabei atropelando-o. Foi tudo muito horrível!
- Calma – voltou a insistir Homero. - Diga exatamente o que e como aconteceu. O ciclista está bem? A polícia foi chamada? Foi prestado socorro?
- Eu não sei doutor. A coisa foi muito rápida. Eu e minha esposa, logo após o choque, tivemos que abandonar o local, isso porque formou-se uma multidão ao redor do carro. Todos estavam muito nervosos. Todos queriam me pegar, parecendo que queriam nos matar. Acho que o acidente foi perto da casa do ciclista porque muitas das pessoas, deu para perceber, eram seus amigos ou parentes. Foi um tumulto, um horror.
- Mas houve socorro? – insistiu o advogado.
- De minha parte não, mas acredito que sim. Pude ver, ao distanciar-me do local, que chegava uma ambulância. Alguém deve ter chamado socorro. Não sei bem como tudo aconteceu doutor. Estava muito escuro. Eu fiquei e estou ainda muito nervoso doutor. Minha esposa está no quarto, também muito nervosa. Tive que dar um tranqüilizante para ela. Mas por favor, diga, o que eu devo fazer?
- Dr. Dionísio, sugiro que a primeira coisa seja descobrir onde e como está o ciclista para sabermos as conseqüências deste acidente. Segundo, verificarmos o encaminhamento que a polícia deu ao caso. Terceiro, depois do senhor e sua esposa se acalmarem, apurar com detalhes como o acidente aconteceu, ou seja, apurar a conduta de cada um para avaliarmos as responsabilidades civis e criminais. É claro que o senhor deve saber que a sua saída do local do acidente não lhe ajuda em nada. Pior, agrava a sua situação.
- Eu sei doutor, mas na hora eu nem pensei nas conseqüências legais. Só quis fugir do local. Não devido a questão legal, mas sim em função da ameaça que senti com a presença daquele grande número de pessoas que cercou o meu carro e que começou com ofensas e ameaças.
- Sim, é claro, eu compreendo. Diante da situação, quem sabe, o senhor poderá justificar também esta sua conduta. Afinal, ninguém está obrigado a colocar em risco a integridade física ou a própria vida, mesmo neste tipo de situação.
Até aí já havia passado uma hora de conversa. A noite escura avançava enquanto o frio longe do aconchego do fogo da lareira aumentava. A chuva fina ajudava a piorar o clima sombrio da situação. O assovio do vento proporcionava uma sensação ainda mais gélida e desmotivava qualquer um que tivesse a idéia de deixar o ambiente agradável em que se encontravam. Depois de uma breve pausa na conversa para que Dionísio se recompusesse, tomou ele a iniciativa de encaminhar a conversa para um outro campo.
- Ótimo, doutor. Gostei do senhor e da sua forma objetiva de colocar as coisas. Mas por favor, antes de prosseguirmos, diga quanto vai custar o serviço. Gostaria que o senhor resolvesse esse assunto para mim.
- Bem, Dr. Dionísio, teríamos que adotar a seguinte postura: um valor para o acompanhamento do senhor na fase policial e, caso haja processo criminal, um outro para a defesa. Por ora vou lhe dar somente o preço desta fase inicial, já que não se sabe se vai haver algum processo contra o senhor.
Dito isso o valor do serviço foi informado e o Dionísio sorriu como se tacitamente já tivesse externado sua concordância. Mas como a contratação deveria ficar pelo menos mais clara, imediatamente disse:
- Não há problema, Dr. Homero. Estou satisfeito com o preço e pela indicação que o hotel me fez. Como eu posso lhe pagar?
- O pagamento é 50% no inicio do trabalho e 50% podemos acertar em duas ou três vezes, como ficar melhor para o senhor - disse o jovem e a partir daquele momento empolgado advogado.
- Não há problema. Pode ser assim. Eu só preciso da compreensão do senhor no sentido de que eu lhe pague a entrada na segunda-feira. É que eu não estava preparado para esta confusão e este gasto extra. Na segunda-feira vou ligar para o meu hospital em Medeia e pedir para fazerem uma remessa bancária de dinheiro para cá. Aí, prontamente eu lhe passo o dinheiro.
- Combinado – disse entusiasmado Homero, certo de ter agradado o novo cliente, passando de imediato a dar com ele o encaminhamento da solução do problema:
- Então faremos o seguinte: vamos agora até o local do acidente, nos apresentamos no plantão policial para relatar o quê e como tudo aconteceu e, principalmente, explicarmos os motivos de sua evasão do local. Com isso estabelecemos a verdadeira forma de ver o acidente, minimizando pelo menos desde já o problema que envolve sua fuga do local. Aproveitamos para ver, se for conveniente, como e onde está o ciclista, o que também pode ajudar a lhe tranqüilizar.
- Bem, Dr. Homero, acho melhor não – disse o cliente com uma voz mais profunda e já sem tanto tremor. - É que os ânimos lá devem estar ainda muito exaltados. O pessoal deve estar no mínimo pelas proximidades do local e eu não me sinto seguro em aparecer por lá. Mesmo porque, doutor, eu não gostaria de deixar minha esposa sozinha. Ela está muito abalada, como eu já lhe disse. E por isso também não seria conveniente, e isso digo como médico, ela ir junto. Quem sabe deixamos para amanhã de manhã. Aí as coisas estarão mais calmas, inclusive comigo e minha esposa.
- Tudo bem, Dr. Dionísio, eu compreendo. Este tipo de situação realmente não é de fácil assimilação. Então vamos fazer o seguinte – continuou rapidamente Homero para mostrar preocupação e presteza com o caso - eu vou agora até lá e descubro como estão as coisas. Tento estabelecer um contato com a polícia e marco uma hora para estarmos lá amanhã para o seu depoimento e de sua esposa. Na volta venho falar com o senhor para relatar o que descobri e o que ficou combinado com a polícia para amanhã.
- Olha doutor – disse de forma amável Dionísio - acho que não é preciso que o senhor se desloque para lá hoje, numa noite como esta. Mesmo porque, pelo adiantado da hora, acredito que o senhor não vai encontrar nenhuma autoridade disponível. Certamente o senhor sabe melhor do que eu como são estes plantões policiais. Quanto ao ciclista, o que está feito está feito. Sua presença lá não vai mudar nada. Vamos fazer o seguinte: o senhor fica aqui jantando comigo e minha esposa, até porque, pelo que sei, o senhor foi chamado no escritório e ainda não deve ter comido até esta hora. O senhor é meu convidado. Durante o jantar até podemos trocar algumas idéias e, inclusive, o senhor já conhece e tranqüiliza pessoalmente a minha esposa. Amanhã de manhã vamos até lá e tomamos as providências sugeridas pelo senhor. Afinal – disse já mais descontraído – o plantão policial vai continuar estando lá, não vai? O que o senhor acha?
- Bem, o senhor não está de todo errado doutor – disse Homero por não querer contrariar o cliente e porque realmente estava com fome, além do que já era quase meia noite. – Acredito que não haverá mal algum se deixarmos para amanhã de manhã. Quanto ao convite, se isso não lhe atrapalha e o senhor não prefere descansar, eu aceito.
- Ótimo, vou até o apartamento falar com minha esposa e pedir para que se apronte e desça para o jantar. Eu não demoro.
Feliz pelo desenrolar do encontro, o jovem advogado ficou pacientemente esperando pelo cliente junto à lareira. Sozinho, aproveitou o tempo para pensar na estratégia para o dia seguinte, enfim, em como desempenhar melhor o trabalho. Meia hora depois aparece o médico, sem a presença da esposa, dizendo:
- Dr. Homero, peço-lhe desculpas, mas minha esposa não poderá nos acompanhar no jantar. Ela está ainda muito nervosa e preferiu ficar no apartamento comendo um pequeno lanche, algo leve, e logo depois dormir. Ela também lhe pede desculpas e aproveita para dizer que está ansiosa por conhecê-lo amanhã.
Preocupado em estar sendo inconveniente, Homero constrangido prontamente também se desculpa:
- Imagina Dr. Dionísio – disse em voz solene e consternada – não há o que desculpar. Sou eu quem pede desculpas por ainda estar aqui e quem sabe atrapalhando o descanso do senhor e de sua esposa. Quem sabe o senhor também não queira descansar? Podemos cancelar o jantar.
- De jeito nenhum, Dr. Homero. Eu insisto. O senhor está sendo muito gentil e solícito, principalmente por ter vindo ao hotel uma hora destas para atender-nos. Eu faço questão que o senhor seja meu convidado. Agora, depois que falei com o senhor, estou mais tranqüilo. Além disso, estou com muita fome. Minha última refeição foi o almoço. De lá até agora, com toda esta confusão, não comi nada.
- Se o senhor prefere assim, então tudo bem.
Homero e Dionísio deslocaram-se, então, para o restaurante do hotel. Lá os dois tiveram um ótimo jantar. Aperitivo com whisky 15 anos, pratos individuais e vinho para acompanhar. Depois disso, sobremesa e licor. Durante o jantar Dionísio contou um pouco de sua vida. Revelou-se um homem muito falante. Contou quando se formou, onde estudou medicina, que a sua especialização era a neurologia e muitos outros detalhes de sua vida profissional. Disse ainda ser rotaryano. Por coincidência, Homero também era rotaryano há poucos meses. Trocaram idéias a respeito deste clube de serviço, revelando suas experiências. Como o médico interessou-se por saber da estrutura de atendimento hospitalar da cidade, Homero contou-lhe o pouco que sabia sobre o hospital local, onde, inclusive revelou, tinha alguns amigos médicos, destacando que um deles também era rotaryano e especialista em neurologia. Ouvindo isso, ele fez um pedido:
- Dr. Homero, já que estou aqui e vou ficar pelo menos o fim-de-semana, gostaria muito de conhecer o hospital local, bem como o colega que o senhor mencionou. Quem sabe eu possa trocar algumas idéias com ele. Eu gostaria muito, me sentiria mais à vontade e teria algo para fazer.
Apenas por cortesia Homero respondeu prontamente que iria tentar o contato. Por isso disse que não via qualquer problema em tentar tal contato, desde que o amigo estivesse na cidade. Com isso deram por encerrado o jantar. Dionísio assinou a nota debitando a conta na despesa do apartamento. Cordialmente se despediram e combinaram de se encontrar na manhã do dia seguinte, sábado, às 09:30hs, quando então rumariam para a cidade do acidente.



- Bom dia – apressou-se o advogado em cumprimentar o cliente pontualmente na hora marcada na recepção do hotel.
- Bom dia – respondeu o cliente com um ânimo surpreendente.
Era uma manhã fria mas ensolarada. Ao contrário do dia anterior, não havia mais umidade no ar. O dia estava claro e o sol brilhava. Um dia perfeito, pensava o jovem Homero, para começar a resolver o problema de um novo cliente.
- Podemos ir Dr. Dionísio? – perguntou ansioso. - É bom irmos andado – completou rapidamente - assim poderemos estar de volta para o meio dia.
Dando-se conta de que a esposa do cliente não estava com ele, Homero perguntou com certa expectativa por ela, a qual imaginara como uma distinta e formosa senhora:
- E sua esposa, já vai descer?
- Não, ela preferiu ficar descansando. Agora é que ela está melhorando. O doutor sabe, o susto foi muito grande. Mas com certeza ela estará conosco para o almoço.
- Bem, então podemos ir Dr. Dionísio. Temos muito a fazer. Vamos direto para o local do acidente para que o senhor antes me mostre o que aconteceu e, de lá, vamos nos dirigir para a delegacia de polícia para apurar o que foi feito até agora e tomar as primeiras providência para o depoimento do senhor e de sua esposa.
- Doutor – começou serenamente a falar cliente - eu estive pensando esta noite e, juntamente com minha esposa, questionamos se não seria melhor deixar tudo para segunda-feira. Agora que as coisas estão mais tranqüilas, que já temos um advogado e que estamos orientados, ficamos imaginando se não seria melhor aproveitar o fim-de-semana e relaxar um pouco. O que o senhor acha? Será que isso pioraria a nossa situação? Isso prejudicaria a nossa defesa?
Envolvido pela tranqüilidade do cliente e pela certeza de que nada mudaria esperar para fazer tudo na segunda-feira, Homero prontamente respondeu:
- Claro que não doutor, não prejudicaria nada. Na realidade – continuou a fim de transmitir mais segurança ao cliente - a ida até o local do acidente esta manhã seria apenas para anteciparmos as diligências e tarefas de segunda-feira.
- Muito bem - exclamou satisfeito Dionísio. - Então está decidido, vamos deixar tudo para segunda-feira. Assim eu e minha esposa poderemos aproveitar o pouco que nos sobrou deste terrível fim de férias. Tenho certeza que ela também ficará mais feliz com isso.
Diante de tal decisão, não restava mais nada a fazer a não ser esperar chegar segunda-feira. Pensando nisso, Homero apressou-se em se despedir. Com o resto da manhã e do dia de folga, estava livre para voltar a sua vida particular e desfrutar o lindo dia de sábado. Porém, antes de dizer a primeira palavra de despedida, ouvia mais uma vez o cada vez mais tranqüilo cliente dizer:
- Dr.Homero, será que nós poderíamos ir até o hospital do qual o senhor falou ontem à noite? Já que estamos com a manhã livre, gostaria de conhecer as instalações do nosocômio local, bem como conhecer o colega médico que o senhor mencionou ontem à noite. Esta sua simpática cidade deve ter um bom hospital!
Apanhado de surpresa por tal pedido, antes de responder, por uma fração de segundos, anteviu seus planos de aproveitar o sábado serem frustrados. Imediatamente teve um reflexo de escusa, tentando evitar atender o pedido.
- Bem, Dr. Dionísio – disse num tom desanimado - na realidade devo confessar que eu não consegui contatá-lo ontem à noite. Não sei se ele está trabalhando hoje ou mesmo se está na cidade.
Com isso ele esperava livrar-se do cliente, deixando-o no hotel para reencontrá-lo apenas na segunda-feira em horário a ser combinado no momento da despedida. Até porque, na realidade, Homero não tinha sequer tentado qualquer contado com o amigo médico na noite anterior. Porém, Dionísio não parecia ser um homem capaz de desistir fácil de um objetivo que atendesse seus anseios. De pronto, sem hesitar um só instante, disse:
- Não tem problema Dr. Homero, vamos tentar a sorte. Se ele não estiver no hospital a gente decide o que fazer.
Não havendo mais como escusar-se, rumaram para o hospital. No trajeto, Homero torceu para que o amigo não estivesse no hospital. Já tinha conquistado o cliente, já tinha acertado o valor do serviço, já tinha acertado o pagamento e, sobretudo, acreditava já ter sido simpático e cortês o suficiente. Era hora de se afastar para manter certa distância.
- Bom dia! – disse o advogado à recepcionista.
- Bom dia! – respondeu educadamente a jovem colocada atrás do balcão apenas com a cabeça à vista.
- Em que posso ajudá-los – perguntou com simpatia.
- Eu sou o Dr. Homero, advogado local. Estou procurando o meu amigo Dr. Élos. Ele está ou esteve aqui hoje?
- Um instante – disse a jovem recepcionista - vou verificar. Eu o vi esta manhã, mas não sei se ele já saiu.
Ao ouvir a perspectiva de que o amigo poderia estar no hospital e aquilo poder virar um tour hospitalar, o que não encarava com muita satisfação também por não gostar de hospitais, começou a achar que as coisas não sairiam de acordo com o que desejava. Estava a ponto de pedir que a recepcionista não se incomodasse tanto quando seus pensamentos foram interrompidos pela voz macia e doce da moça:
- O Dr. Élus está. Ele disse que os senhores podem descer até a sala dos cirurgiões. É só seguir por aquele corredor.
- Que sorte! – exclamou Dionísio. - Viu Dr. Homero, um homem com fé, pensamento positivo e persistência alcança o que deseja neste mundo, que se não é o melhor dos mundos possíveis, é no mínimo um dos possíveis.
- É verdade, que sorte – exclamou Homero fingindo o mesmo ânimo e o compartilhamento daquela reflexão que parecia já ter lido em algum lugar, enquanto no seu íntimo pensava aonde a sua fé, pensamento positivo e persistência teriam falhado ou, ainda, quanto mais elas teriam que ter sido superiores as de Dionísio naquele instante para que seu desejo e não o dele tivesse se concretizado. E teve uma certeza: esse não era, pelo menos naquele instante e para ele, o melhor dos mundos possíveis.
No trajeto até a sala dos cirurgiões não encontrava a resposta para o dilema metafísico indesejado apesar de continuar pensando nas palavras do cliente, repetindo para si mesmo: fé, pensamento positivo e persistência. Na falta de respostas imediatas, desistiu daqueles pensamentos e se concentrou em outro: até que horas aquilo iria durar.
- Bom dia, XX! Como vais? – disse um pouco mais verdadeiramente animado Homero, ao ver o amigo.
- Bom dia. Eu vou bem, e você?
- Eu também, Élus. Deixa eu te apresentar o Dr. Dionísio – apressou-se Homero em dizer. - Ele veio de Medéia para visitar nossa região e, infelizmente, ontem teve um acidente de carro. Vai ficar aqui até segunda-feira e insistiu em conhecer o hospital e algum médico da especialidade dele. Espero não estar incomodando ou atrapalhando teu serviço.
- De maneira nenhuma – respondeu gentilmente Élus, dirigindo o olhar ao amigo. - É sempre uma satisfação rever os amigos e poder conhecer um colega, principalmente da mesma área. Muito prazer – disse para o colega médico, dirigindo-lhe o olhar com verdadeira afeição.
- O prazer é meu, Dr. Élus. Não é sempre que nós temos a oportunidade de conhecer colegas de tão longe e trocar algumas idéias, mesmo que rapidamente.
Os dois médicos passaram a conversar enquanto gentilmente Élus mostrava as dependências do hospital. A conversa girou em torno do único assunto que ligava os dois: medicina. Enquanto Élus mostrava ânimo e disposição para matar a curiosidade do colega a respeito das condições hospitalares da cidade, Dionísio mostrava-se cada vez mais interessado e simpático. A conversa fluía natural e harmoniosamente sem a participação de Homero que não entendida nada de medicina e muito menos das questões que interessavam especificamente aos dois médicos sobre o tema hospital. Ele sentia-se aliviado em poder dividir a atenção de Dionísio, que cada vez mais parecia querer ou necessitar da atenção inesgotável de pessoas a sua volta. Ao se dar conta de que aproximava-se o meio dia, Homero interrompeu os dois para alertá-los da hora e para aproveitar livrar o amigo e ele próprio de Dionísio. Se eles se despedissem logo, ainda daria tempo para fazer muitas coisas para se divertir um pouco na tarde daquele lindo dia.
- Bem, não sei se vocês se deram conta – disse num tom gentil, interrompendo a conversa dos dois animados médicos - mas já são 11hs e 45 min.
Sem ter tido a atenção desejada, olhou mais diretamente para cada um deles e fingindo mais preocupação com eles do que com seus próprios planos, arrematou:
- Dr. Dionísio, sua esposa deve estar preocupada e lhe esperando para almoçar. E você, meu caro Élus, sua família também deve estar lhe esperando!
Nenhum dos dois, no entanto, demonstrou qualquer preocupação com o horário, frustrando a tentativa de Homero em se livrar imediatamente dos dois. Na verdade, ambos, quase ao mesmo tempo e com o mesmo entusiasmo, disseram que não havia motivo para preocupação porque ainda era cedo. Dionísico alegou que sua esposa sabia onde ele estava e que o casal era acostumado a almoçar tarde, um hábito comum em cidades grandes como a dele. Élus disse que estava acompanhando a evolução do quadro clínico de um paciente e que não iria almoçar com a família. Fé, deve ser isso o que está faltando, fé, disse Homero para si mesmo. Imediatamente, parecendo que aguardava pelo momento certo, Dionísio, revelando mais uma vez o que Homero já havia percebido sobre a tendência do cliente de se aproximar das pessoas, lançou um enfático e animado convite para ambos:
- Então vamos almoçar juntos, mais tarde, nós três, junto com minha esposa, no hotel!
- Infelizmente – respondeu por primeiro Élus - não vai ser possível. Agradeço muito o convite, mas não posso. Prometi levar minha esposa e filha para uma festa de aniversário da filha de um amigo nosso logo no início da tarde. Espero que o senhor não fique sentido. Garanto-lhe que teria um enorme prazer em acompanhá-los, mas realmente, por este motivo, não posso.
- Não há problema – disse Dionísio rapidamente, antes que Homero pudesse também dar uma desculpa, fosse ela verdadeira ou não. - Fique tranqüilo, eu terei a companhia do meu advogado, o senhor não acha Dr. Élus?
- É claro que sim - confirmou Élus, querendo ser simpático e acreditando na disposição do amigo em fazer companhia para o nobre colega. - Homero é uma boa companhia – acrescentou querendo ser mais simpático ainda.
Dionísico, mais uma vez, conduzia habilmente a situação em sua volta. Acabara de deixar Homero numa situação delicada. Dar uma desculpa nesta hora achou que não cairia bem. Poderia soar antipático. Também não seria um comportamento educado. Além do mais, pensava sobretudo, cliente é cliente. Homero, então, resignado, acabara de abandonar definitivamente a idéia de aproveitar o sábado. Já conformado com uma situação da qual não via saída, assentiu com a cabeça e um pequeno sorrido, ao mesmo tempo que aproveitou para agradecer laconicamente o elogio do amigo:
- Bondade sua Élus!
Ao se dirigirem para a saída do hospital, os dois médicos se despediram cordial e fraternamente. Parecia que tinham se entendido bem. Falavam a mesma linguagem. Porém, antes de sair, Dionísio, confirmando seu estilo, não deixou por menos e fulminou:
- Dr. Élus, como o senhor não pode almoçar conosco, eu tive uma idéia. O senhor e sua família, juntamente com a família do Dr. Homero, são meus convidados para jantar comigo e minha esposa nesta noite no hotel. O senhor foi tão gentil comigo que quero retribuir. Não aceito não como resposta!
- Mas Dr. Dionísico – disse Élus numa mistura de surpresa e agradecimento - não sei se posso aceitar. Acho que seria um pouco de abuso.
- De maneira nenhuma – retrucou Dionísio simpático e quase impositivo - não é abuso nenhum. Eu faço questão. O colega foi muito gentil em dar tanto do seu tempo para matar a minha curiosidade sobre o sistema de saúde desta linda cidade. Como eu disse, não aceito não como resposta.
Enquanto o jovem advogado pensava no que estava acontecendo e ainda sem ter dado a sua resposta, ouviu Élus ceder com alegria e confirmar o convite. Enquanto os médicos definitivamente se despediam, Dionísio determinou o horário do encontro para às 20:00hs. No trajeto para o hotel só ele falou. Estava agradecido e eufórico. Agradecido por Homero ter-lhe apresentado tão simpático colega; eufórico porque havia tido contato com as instalações do hospital e ampliado sua visão a esse respeito. Segundo ele, tinha visto algumas coisas que iria implantar em seu próprio hospital. Homero permaneceu calado tentando imaginar um jeito de pelo menos se livra do jantar. Porém, achou que não era hora para falar nisso. Era melhor deixar para a despedida do almoço. Até lá acharia uma desculpa convincente. Fé, pensou novamente. Fé!, Fé!, repetiu para si mesmo.
Instalados confortavelmente no aconchegante restaurante do hotel, advogado e cliente sorviam seus whiskys meticulosamente escolhidos pelo anfitrião, que parecia não medir esforços para agradar seu advogado. Enquanto isso, aguardavam a Sra. Dionísio descer dos aposentos para se juntar a eles. Ela tinha sido avisada de que o marido e o advogado haviam chegado e a aguardavam para o almoço. Poucos minutos depois aproximou-se deles a esperada senhora.
- Dr. Homero – disse de forma solene Midnight - esta é minha esposa.
- Bom dia, ou melhor, boa tarde – disse cordialmente Homero, hesitando sobre o cumprimento em função da hora, provocando com isso um tímido sorriso na Sra. Midnight.
- Bom dia Dr. Homero - respondeu ela com um tom de voz muito baixo, quase que inaudível, com a cabeça maio voltada para baixo, numa postura quase de subserviência.
Tratava-se a tão esperada senhora de uma mulher franzina, de apresentação singela, aparentemente beirando a simploriedade, de olhar escondido, com a cabeça que mal se sobressaia sobre os ombros. Não era o tipo de senhora que Homero estava esperando encontrar. Seu estilo deixou a conversa paralisada, não saindo do solene e inevitável cumprimento. Para quebrar o gelo, Homero rapidamente procurou ampliar o contato puxando assunto.
- Como a senhora está? Passou bem a noite? Está mais tranqüila?
- Ela está bem – respondeu Dionísio, não dando tempo que ela respondesse e fazendo com que nada se ouvisse dela.
Daí em diante não se ouviu mais a voz da Sra. Dionísio. A cada intervenção que Homero fazia procurando envolvê-la na conversa, Dionísio antecipava-se, até que Homero desistiu de seu intento cordial. Neste ritmo e ao desfrute dos mais saborosos pratos e bebidas, foram se dirigindo ao final do almoço. Ao marcar o relógio 14:30hs, depois de duas garrafas de vinho, o jovem advogado iniciava a encaminhar sua despedida, certo de que veria o casal apenas na segunda-feira, quando então não seria mais uma companhia, mas apenas o advogado, o que desejava cada vez mais.
- Bem, Dr. Dionísio – iniciou com o tom de quem anunciaria algo peremptório - já estamos quase no meio da tarde e o senhor e sua esposa têm outro compromisso social ainda hoje com nosso amigo Dr. Élus. Por isso não quero mais segurá-los. Principalmente o senhor, que deve estar muito cansado, já que levantou muito cedo.
A intenção de Homero era uma só: se fazer de responsável pelo tempo de permanência dos três juntos, dando a impressão que ele era quem deveria se retirar, bem como induzir uma situação que parecesse que para o jantar ele estivesse dispensado e não que não quisesse estar presente.
- Ora, doutor, nós não estamos cansados – respondeu Dionísio. A sua companhia é muito agradável e o almoço está uma maravilha. Assim, não é preciso apressar-se para ir embora. Além disso, quero deixar claro que o meu compromisso e de minha esposa hoje à noite não é apenas com o Dr. Élus, mas também com o senhor. Não se esqueça que o senhor também é meu convidado e eu faço questão da sua presença.
- Mas...- iniciou Homero na tentativa de tentar outra tática para esquivar-se, quanto foi rapidamente interrompido.
- Não tem “mas” nenhum. Não precisa se preocupar. O senhor não está e nem estará atrapalhando nada. Faço questão da sua presença que nos deixa cada vez mais tranqüilos.
Dionísio estava mais uma vez demonstrando seu jeito envolvente de ser, confirmando mais categoricamente o que seu advogado já pensava dele. Não havia mais o que ser dito ou ser feito, Homero estava comprometido, não queria desagradar o excessivamente receptivo e simpático cliente. O jeito era ceder mais uma vez, fazendo-se presente também no jantar. Mas uma coisa era certa, aquela simpatia e insistência excessiva começavam a intrigar o jovem advogado.
- E tem mais, Dr. Homero– fulminou seqüencialmente, como se o assunto estivesse encerrado e a presença do advogado já tivesse sido confirmada - nós nem comemos a sobremesa ainda. Também por isso o senhor ainda não pode ir embora.
No mesmo instante Dionísio acenou novamente para o garçom sempre atento e pronto para o estalar de dedos do anfitrião daquele banquete chamado almoço e ordenou:
- Traga o cardápio das sobremesas e a carta das bebidas.
Rapidamente tomou a liberdade de escolher a sobremesa e o licor para os três, confirmando com o convidado, sem fazer o mesmo com a esposa, se aquela escolha também era do seu gosto. Com o assentimento, mandou servir.
- Bem, Dr.Dionísio, agora sim, depois desta sobremesa maravilhosa, definitivamente vou despedindo-me.
- Agora sim podemos descansar – respondeu com gentileza. - Aguardo o senhor às 20:00hs como combinado com o Dr. Élus.
O anfitrião pediu a conta e assinou a nota para débito no apartamento. Não havia mais nada a ser feito a não ser a formal despedida. Homero estava cansado e ao mesmo tempo, apesar de tudo, encantado com tanta gentileza. Pelo que havia ouvido falar, clientes não costumavam tratar assim seus advogados. Concluiu que aquele homem, além do traço natural de sua simpatia, estava movido pela necessidade de passar o fim-de-semana na companhia de mais pessoas além de sua esposa. Isso, é claro, aparentemente se justificava. Quanto mais companhia e coisas para fazer mais rápido passaria o dia e menos tempo ele e a esposa teriam para relembrar o terrível acidente. Pensando assim, já se sentia mais conformado por perder todo o sábado na companhia do casal. No fim, além da ajuda profissional, fazendo companhia para eles, acabaria contribuindo para a minimização da angústia que deveriam estar sentindo. Tal pensamento lhe dava um pouco mais de ânimo e força para encarar um jantar que aconteceria em poucas horas. E a noite chegou rapidamente.
- Boa noite Dr. Dionísio, boa noite Sra.Dionísio, boa noite Élus, boa noite Sra. Élus, olá meninas - disse Homero a cada um dos que já estavam reunidos a sua espera.
- Boa noite - responderam todos quase ao mesmo tempo.
- Vamos nos acomodar – comandou Dionísio com aquele seu já conhecido estilo.
Todos se acomodaram no restaurante do hotel. Élus viera acompanhado da esposa e das duas filhas adolescentes. Todos fizeram seus pedidos. Dionísio comandou o pedido das bebidas. Mais uma vez, o jantar era precedido de bons whiskys e regado a bons vinhos. A conversa fluía entre todos na maior descontração. Os dois médicos pareciam se conhecer há anos. A conversa entre eles fluía ainda com mais facilidade do que pela manhã. Passado algum tempo, Élus entrou no assunto do acidente. Estava curioso para saber o quê e como tinha acontecido. Dionísico, ainda mais descontraído pelo efeito da bebida, contou a mesma história que havia contado para seu advogado, embora sem muitos detalhes e procurando mudar de assunto rapidamente, possivelmente por achá-lo desagradável e fazer-lhe lembrar de algo que ainda no fundo lhe atormentava pela incerteza sobre os acontecimentos.
- E a senhora, Dona Dionísio, o que viu e sentiu? – perguntou Élus, vendo que ela havia se mantido calada todo tempo, numa postura que Homero já vira durante o almoço.
- Ela também ficou muito nervosa. Não viu quase nada porque foi tudo muito rápido e estava muito escuro e chuviscando – apressou-se Dionísio a responder no lugar dela, como já havia feito antes.
O comportamento de Dionísio mais uma vez, e agora ainda mais, despertou a atenção de Homero. Por que a mulher se mantinha tão calada? Por que não respondia o que lhe era perguntado? Por que se limitara a dizer uma ou duas frases apenas corroborativas ao que os outros componentes da mesa diziam? Por que Dionísio tinha aquela postura? Será que aquela mulher era tão calada porque o marido era tão falante e comunicativo? Isso passou a intrigar Homero, mas isso não parecia tão importante. Se eles eram felizes assim ele não tinha nada com isso. Mas no fundo era no mínimo constrangedor ver aquela mulher com aquele comportamento tão estranho, que de tímido Homero já o estava classificando de submisso.
- Garçom – disse fortemente o anfitrião interrompendo os pensamento de Homero - traga dois champanhe, do melhor. Nós precisamos brindar – anunciou para os companheiros de mesa. - Não é sempre que se faz bons amigos!
Ao champanhe sucedeu a sobremesa e, mais uma vez, mantendo o estilo, o licor. Estava claro que Dionísio não era de fazer economia e gostava de uma vida com boa comida e regada a boas bebidas. Para Élus e sua esposa este aspecto ainda não havia chamado atenção, eis que era seu primeiro encontro com o casal anfitrião. Para Homero, porém, havia ficado claro aquele traço do cliente. Era a terceira vez que via o cliente não poupar para agradar quem estava a sua volta.
- Dr. Dionísio – começou a dizer Élus - infelizmente, pelo adiantado da hora, devo despedir-me. É que estou de plantão e preciso recolher-me. O senhor sabe como são estas coisas. Se alguém chamar do hospital durante a madrugada eu gostaria de estar descansado. Por isso quem sabe vamos pedindo a conta?
- É claro que compreendo, Dr. Élus– disse Dionísio ao colega num tom consternado. - A nossa profissão, às vezes, exige demais da nossa vida pessoal e familiar, como agora, por exemplo. Nós gostaríamos de contar com a sua companhia e da sua adorável família por mais tempo, mas, se o dever chama, tudo bem. É assim mesmo. Quanto à conta, nem pense nisso. Vocês todos são meus convidados e, como se diz na minha terra, quem convida paga. Garçom – chamou ele mais uma vez - a conta por favor.
O jantar estava encerrado. Homero observava Dionísico assinar a nota enquanto os demais tomavam seus cafezinhos por conta da casa. Tinha sido uma noite realmente agradável. Agora só restava ir para casa pensava Homero, esperar o domingo e descansar para segunda-feira estar pronto para dar tudo de si àquele enigmático mas simpático cliente. Todos juntos começaram a se dirigir para a saída do hotel, até aonde o casal anfitrião fez questão de acompanhar os convidados.
-Antes da despedida – disse Dionísio - gostaria de saber do senhor Dr. Élus até que horas é o seu plantão.
- Até as 06:00hs, por quê?
- Por que eu tive uma idéia!
Homero não acreditava no que estava ouvindo. Dionísio estava tendo outra idéia! Como todas as idéias que ele tinha tido nestas últimas 24hs envolvia passeio e comida, pensou que a próxima a ser anunciada não poderia ser diferente. Que outra idéia poderia ter Dionísio àquela hora!
- A minha idéia é a seguinte – fulminou com todo o entusiasmo possível, como se o dia estivesse começando - vocês são meus convidados para o almoço amanhã!
Homero não mexeu um só músculo. Só seus pensamentos se “mexiam” freneticamente à procura do que não haviam conseguido até então: uma desculpa, um motivo, alguma coisa, qualquer coisa para se livrar do convívio social que Dionísio não parava de querer proporcionar. Homero simplesmente não agüentava mais. A situação já estava ficando pessoalmente perturbadora. Mas mais uma vez, antes que ele dissesse alguma coisa, Élus sentenciou:
- Nós só aceitamos se o nosso amigo Homero puder estar conosco!
- Mas é que eu... – tentou dizer rapidamente Homero, quando foi interrompido por Dionísio, o que parecia estar se tornando um hábito.
- Então está decidido, nos encontramos aqui amanhã ao meio-dia. Vai ser um dia incrível. Poderemos compensar as horas que não vamos aproveitar agora por causa do repouso que o Dr. Élus precisa ter devido ao plantão.
Dionísio era só exclamações. Estava radiante. Talvez nem tivesse se dado conta que interrompera Homero. Parecia alguém perdido que encontrara o caminho. Homero, por sua vez, parecia estar perdido neste mesmo caminho. Mais uma vez estava numa situação difícil. Negar o convite nestas circunstâncias não era apenas magoar o cliente, apesar de que estava convicto de que aquele não tinha nada do que se queixar da sua conduta sociável, mas sobretudo deixar o amigo Élus constrangido, na medida em que a condicionante para ele ir ao almoço era sua presença, onde certamente Élus queria estar, já que dera sinais claros de que gostara da companhia de Dionísio. Não havia mais como dizer não. Todos se despediram com o almoço confirmado.
A manhã seguinte chegou rápido. Mais uma vez estavam todos reunidos como programara Dionísio. Como sempre era ele quem mais falava, mais elogiava, mais esbanjava simpatia. Parecia não haver limites para aquele homem pequeno de estatura mas grande na arte de agradar, embora eventualmente chato pela insistência.
- Dr. Dionísio - disse Jon depois de duas horas sentados à mesa e saciados de tanto comer e beber - acredito que já esteja na hora de nos despedirmos. O almoço estava uma delícia, mas preciso ir. Quem sabe pedimos a conta.
- O que é isso doutor, o senhor e a família do Dr. Élus são meus convidados, sou eu quem paga a conta. Mas antes disso - concluiu com imposição - vamos comer a sobremesa e tomar um liquor. Isso eu exijo para selarmos nosso último encontro!
- Último encontro social – arrematou Homero - e isso entre nós, já que amanhã é dia de encontro profissional.
- Ah, sim, é claro - concordou rapidamente o cliente. - Amanhã, infelizmente, a vida recomeça.
Todos levantaram um brinde, inclusive a esposa de Dionísio, mesmo que escondida atrás do seu sempre presente silêncio serviçal e tímido. Como último ato, mais uma vez todos assistiam o anfitrião assinar a nota debitando a conta para o seu apartamento. Sem dúvida tratava-se de um homem bastante desprendido das questões materiais. Sem dúvida todos estavam impressionados com a simpatia e a amabilidade daquele cidadão que 48 hs antes era apenas um simples desconhecido envolvido em um triste acidente.
- Ora do adeus Dr. Dionísio – disse Élus com todo o carinho que alguém poderia manifestar em uma despedida. - Eu e minha família estamos muito gratos com a sua acolhida. Foi realmente um prazer conhecê-lo.
- O prazer foi meu – responde Dionísio rapidamente e com um franco sorriso nos lábios. - Vocês não sabem o prazer que proporcionaram a mim e minha esposa. Sem a companhia de vocês tudo isso não teria sido possível e este fim-de-semana teria sido igual a tantos outros. Graças a sua família e ao Dr. Homero eu e minha esposa pudemos desfrutar de muitas coisas boas da vida. Espero sinceramente vê-lo de novo Dr. Élus, bem como, é claro, a sua família. Quero dizer que vocês são todos nossos convidados para nos visitarem na nossa cidade, a hora que quiserem. Se forem, o senhor terá a oportunidade de conhecer o meu hospital, que não é tão grande quanto o de sua cidade mas que, com certeza, realiza, como o daqui, um trabalho importante.
- Com certeza Dr. Dionísio, pode esperar que um dia iremos lhe visitar – respondeu Élus de maneira ainda mais empolgada.
- Ótimo, deixarei meu endereço e telefones com o Dr. Homero que fará o favor de lhe repassar, não é, doutor?
- Com certeza Dr.Dionísio, pode ficar tranqüilo – respondeu com presteza o jovem advogado.
Já era 15h30min quando todos se despediram cordialmente. Mais uma vez à porta do hotel, os médicos se abraçaram, só que desta vez com mais carinho, comportamento que Homero não adotou porque preferia manter a relação um pouco mais à distância diante do caráter profissional que havia promovido a aproximação dele com Dionísio, o que deveria se seguiria no dia seguinte.
- Bem, Dr. Dionísio – disse Homero já à porta do carro enquanto o amigo Élus e sua família se distanciavam - não se esqueça do nosso encontro amanhã de manhã, que como foi de sua preferência para poder conhecer meu escritório, ao invés de se dar aqui, se dará lá, onde o aguardarei às 9:00hs, como o combinado.
- Mas é claro que não esquecerei. Amanhã será um grande dia para o nosso futuro. E tenho certeza, pelo que pude observar do senhor ao longo do fim-de-semana, que a partir de amanhã seremos todos mais felizes.
- Agradeço sua consideração doutor. Esteja certo de que farei pelo senhor tudo que estiver ao meu alcance.
- Estou certo disso - disse Dionísio com uma voz confiante ao mesmo tempo em que se virava para ingressar no hotel.
Ao dar um aceno de mão com o braço levantado, a porta que se fechava atrás dele escondeu apenas uma parte do sorriso satisfeito que estampava. Por sua vez, já a caminho de casa, Homero sorria consigo mesmo principalmente porque não haveria mais encontros sociais com o cliente.
No dia seguinte, Homero estava à beira da sacada do seu apartamento tomando uma xícara de café e observando o dia que acabara de nascer. Era uma linda manhã de segunda-feira. Apesar de frio, mais uma vez, a exemplo do domingo, o sol brilhava dando cor e vida a tudo a sua volta. Era um lindo dia para iniciar uma semana de trabalho. Era um lindo dia, pensava de forma eloqüente, agora sim, para dar início à solução de um problema: o problema do seu mais novo cliente.
- Bom dia – disse empolgado à secretária. Daqui alguns minutos vai chegar um cliente novo que conheci este fim-de-semana, o Dr. Dionísio e sua esposa. Assim que eles chegarem, faça-os entrar imediatamente.
Depois de algum tempo olhou para o relógio pela terceira vez e observou que já era 10hs, o que indicava que o casal já estava atrasado em 1 h. Impaciente e certo de que o atraso resultaria em um prejuízo nas tarefas daquela manhã, já que ainda tinham um deslocamento para a cidade vizinha aonde ocorrera o acidente, Homero resolveu ligar para o cliente no hotel.
- Bom dia, aqui é o Dr. Homero - disse cordialmente à telefonista. - Poderia passar a ligação para o quarto do Dr. Dionísio?
- Dr. Homero - voltou falando ao telefone a atendente após alguns segundos de espera - no apartamento do Dr. Dionísio ninguém atende. Ou ele está tomando o café da manhã ou deve ter saído.
- Por favor, então passe a ligação para o gerente.
- Dr. Homero – tomou a iniciativa de dizer amigavelmente o gerente - em que posso ajudá-lo?
- Lembra do Dr. Dionísio, aquele que você me apresentou sexta-feira?
- Sim, claro que lembro. O homem que entrou com a esposa no hotel naquela noite e que precisava dos seus serviços por causa de um acidente de trânsito.
- Esse mesmo. Gostaria de saber se ele está no hotel. É que nós combinamos de nos encontrar aqui no meu escritório às 9hs e já são 10hs. Eu estou preocupado!
- Não Dr. Homero, ele não está no hotel. Acabou de sair. Eu o vi saindo e conversei com ele. O Dr. Dionísio comentou que tinha se atrasado para o encontro com o senhor mas que estava se dirigindo para o seu escritório. Inclusive eu expliquei detalhadamente como chegar aí. Ele até pediu para lhe avisar mas eu esqueci. Desculpe.
- Tudo bem. Vou aguardá-lo. Muito obrigado.
Ao desligar o telefone Homero sentiu um certo alívio, apesar da preocupação com a demora permanecer. Toda a programação da manhã estava ficando prejudicada. Ele estava com a sensação de que o homem preocupado que encontrara no primeiro encontro já não estava tão preocupado assim com sua situação. Mas por quê? Dionísio estaria ainda sob o efeito dos agradáveis momentos do fim-de-semana? Teria minimizado a extensão do problema que enfrentaria? Ou será que se tratava de um homem com tantas posses e de vida tão tranqüila, material e espiritualmente, que acreditava poder resolver tranqüilamente situações que fugissem ao controle, como um acidente? Haveria alguma coisa que ele não tinha lhe contado? Isso começava a preocupá-lo, mas o certo é que as respostas chegariam logo, o que lhe tranqüilizava.
- Olá - disse Homero apressadamente e sem a costumeira simpatia à telefonista do hotel. - Por favor, quero falar com o gerente.
- Olá doutor o que o senhor manda? – perguntou o gerente animado.
- O Dr. Dionísio ainda não chegou aqui. São quase 11hs e nada, nenhuma notícia. Você teve alguma notícia? Ele telefonou ou voltou para o hotel?
- Não, nenhuma das duas coisas. Depois que conversei com ele para explicar como chegar no seu escritório eu não o vi mais. Talvez ele tenha parado em alguma loja ou errado o caminho. Calma doutor, o senhor está muito ansioso, daqui a pouco ele estará aí.
- Diga-me uma coisa - perguntou ainda Homero, ele saiu do hotel com a esposa?
- Sim, eles estavam juntos, por quê?
- É que ela precisa ir conosco para também dar seu depoimento, já que ela estava com o marido na ocasião do acidente. Por enquanto obrigado.
Homero já estava se sentido meio desconfortável com aquela situação de correr atrás do cliente. É claro que logo-logo, pensava, eles estariam no escritório e então rumariam para resolver o problema. Homero parou em frente ao computador e começou a trabalhar num processo. Enquanto escrevia se deu conta de que o cliente tinha que passar no banco para retirar o valor que seria enviado a ele via remessa bancária para o pagamento do sinal dos honorários e esse poderia ser o motivo de estar atrasado. Depois de pensar nesta hipótese, o que lhe acalmou, continuou na tarefa que havia há pouco iniciado.
- O senhor precisa de mais alguma coisa, doutor? – perguntou a secretária pelo interfone.
- Por quê? - retrucou surpreso Homero com outra pergunta.
- Porque já é meio-dia. Estou saindo para o almoço.
- Não, não preciso de mais nada, pode ir.
Ele havia ficado tão concentrado na tarefa que estava desenvolvendo que não se dera conta de que o tempo havia passado rapidamente. Já era meio-dia e nenhuma notícia do cliente. Onde é que o casal havia se metido? Homero hesitou um pouco sobre o que deveria fazer. Deveria telefonar de novo para o hotel ou sair também ele para o almoço? Estava em dúvida. Não queria passar por chato, mas muito menos por despreocupado ou relapso para com o cliente e, mais ainda, com um hóspede do hotel seu cliente. E se saísse para almoçar e eles chegassem e não o encontrassem? E se tivesse havido algum contratempo no banco e eles estavam chegando? Muitos pensamentos passavam pela cabeça de Homero até que ele decidiu esperar mais um pouco no escritório. Depois de andar alguns minutos de um lado para o outro da sala envolto em tantas conjecturações e dúvidas não agüentou mais.
- Boa tarde - disse à telefonista com uma voz seca que indicava sua decepção com a situação. - Por favor, com o gerente.
- Boa tarde, Dr. Homero, em que posso ajudá-lo? .
- Olha, o Dr. Dionísio não apareceu aqui. Eu estou ficando preocupado. Ele retornou ao hotel ou deu alguma notícia?
- Que eu saiba não.
- Então faz o favor de verificar. Algo deve estar acontecendo.
- Vou dar uma olhada e já ligo para o senhor doutor, pode ser?
- Tudo bem, eu fico aguardando.
Não demorou para o telefone no escritório tocar.
- Dr. Homero - disse o gerente com uma voz atordoada.
- Sim, fale, fale – respondeu o advogado por sua vez com muita expectativa.
- Nós abrimos o quarto do Dr. Dionísio e não há nada lá dentro. Nenhuma roupa pessoal, nenhuma mala, nenhum objeto de higiene, nada.
- Mas como, ele deixou o hotel? Encerrou a conta?
- Bem, encerrar a conta não encerrou, mas que parece ter deixado o hotel, isso parece.
- Mas como? Deixou o hotel de carro, de taxi ou a pé?
- Tudo indica que ele deixou o hotel a pé.
- A pé? Mas como é que um casal iria deixar o hotel a pé e levando as malas? E o carro dele?
- Mas Dr. Homero, eles estavam a pé e não tinham malas quando chegaram ao hotel!
- O quê? – gritou Jon do outro lado da linha. - Mas o Dr. Dionísio não chegou no hotel na sexta-feira à noite com o carro que atropelou o ciclista e com o qual empregou em fuga do local? E como não tinha malas se o casal estava de férias?
- Na realidade, na sexta-feira, ele chegou de táxi, alegando na portaria que havia abandonado o carro no local do acidente. Segundo ele, não havia dado tempo de tirar as malas do carro por causa da pressa em deixar o local. Tudo que eles tinham de bagagem quando chegaram no hotel era uma valise de mão da esposa dele. O senhor não sabia disso?
- Não, na realidade ele disse que fugiu do local do acidente, mas não que tivesse fugido sem o carro. Quanto à bagagem, nem se tocou neste assunto, eis que não vinha ao caso.
- Muito bem, onde está ele, então, Dr. Homero? - perguntou incrédulo o gerente do hotel.
- Possivelmente se preparando para comer e beber às custas de outro hotel por aí, fazendo deste mundo o lugar do possível.
Homero desligou o telefone, olhou pela janela e só então entendeu o que Dionísio quis realmente dizer quando, agradecendo a companhia dele e da família do amigo Élus afirmou que sem eles o casal não teria conseguido desfrutar de tantas coisas boas da vida. Fé, pensamento positivo e persistência, teve Homero como último pensamento antes de se entregar ao trabalho.

FIM